Patologias do Quadril

O Que é o Trocânter Maior e Por Que Essa Região Dói

Quem lê um laudo de radiografia ou de ressonância do quadril encontra a palavra trocânter maior com frequência, quase sempre sem explicação. Este texto responde o que é essa estrutura, por que ela aparece tanto nos exames e por que dói.

O que é o trocânter maior

O trocânter maior é uma proeminência óssea na parte de cima e de fora do fêmur, logo abaixo do colo femoral. É a saliência que você sente ao apoiar a mão na lateral do quadril, e é o ponto do corpo que encosta no colchão quando você deita de lado.

Ele não faz parte da articulação. Isso é importante: dor no trocânter não é dor articular, e por isso o tratamento é completamente diferente do que se faz para desgaste da articulação.

Existe também o trocânter menor, uma projeção bem mais discreta na face interna do fêmur, onde se prende o músculo iliopsoas. Quando o laudo fala em “trocânteres”, no plural, refere-se aos dois.

Para que ele serve

O trocânter maior é uma alavanca. Nele se prendem os tendões dos músculos que estabilizam a bacia enquanto você caminha, principalmente o glúteo médio e o glúteo mínimo.

A função desses músculos fica evidente numa observação simples: a cada passo, quando você apoia um pé no chão, o outro lado da bacia tenderia a cair. São eles que impedem isso. Quando estão fracos ou lesionados, a pessoa desenvolve uma marcha característica, com inclinação do tronco para o lado.

Por que essa região dói tanto

A dor nessa área é uma das queixas mais comuns em ortopedia do quadril, e três estruturas concorrem para explicá-la.

Os tendões glúteos. São a causa mais frequente. Com o tempo e a sobrecarga, o tendão degenera no ponto em que se prende ao osso, o que se chama tendinopatia glútea. Atinge sobretudo mulheres a partir dos 40 anos, por razões que envolvem a anatomia da bacia feminina.

As bursas. São bolsas de deslizamento entre o osso e os tecidos. Elas podem inflamar, mas hoje se sabe que raramente são a causa principal, apesar de o nome bursite ter ficado popular. Sobre essa mudança de entendimento, veja o que é a bursite trocantérica.

A banda iliotibial. É uma faixa espessa de tecido que corre pela lateral da coxa e passa por cima do trocânter. Quando está tensa, comprime as estruturas contra o osso.

O conjunto desses três problemas recebe hoje o nome de síndrome da dor do trocânter maior, e o panorama do quadro está descrito no material da Academia Americana de Cirurgiões Ortopédicos sobre bursite do quadril.

Como a dor do trocânter se comporta

  • Fica na lateral do quadril, e o paciente costuma apontar o local com um dedo.
  • Piora ao deitar sobre aquele lado, o que atrapalha o sono.
  • Piora ao subir escada e ao ficar de pé apoiado numa perna só.
  • Pode irradiar pela face lateral da coxa, mas raramente passa do joelho.
  • Não costuma vir com formigamento ou dormência.

Esse padrão distingue a dor do trocânter da dor da articulação, que se concentra na virilha, e da dor vinda da coluna, que desce além do joelho com sintomas nervosos. Para uma comparação completa, veja as seis causas mais comuns de dor no glúteo.

Por que atinge mais mulheres

A predominância feminina nesse tipo de dor não é impressão clínica: tem explicação anatômica. A bacia feminina é proporcionalmente mais larga, o que faz o fêmur descer em um ângulo mais fechado até o joelho.

Esse ângulo aumenta a tensão da banda iliotibial sobre o trocânter e exige mais trabalho dos glúteos para estabilizar a bacia a cada passo. Ao longo de anos, a inserção do tendão no osso acumula sobrecarga.

A redução de estrogênio após a menopausa também interfere na qualidade do colágeno dos tendões, o que ajuda a explicar por que o pico de incidência acontece entre os 40 e os 60 anos. Nada disso torna o quadro inevitável: força de glúteo bem trabalhada compensa boa parte da desvantagem mecânica.

Fraturas do trocânter

Em quedas, principalmente em pessoas idosas com osso enfraquecido, a fratura pode ocorrer na região dos trocânteres, sendo então chamada de fratura transtrocantérica. Ela é diferente da fratura do colo femoral e tem tratamento próprio, geralmente com fixação. Sobre esse grupo de lesões, veja o atendimento de fratura do quadril.

Perguntas frequentes

Onde fica exatamente o trocânter maior?

Na lateral do quadril, cerca de um palmo abaixo da cintura. É a saliência óssea que você sente ao apoiar a mão no quadril e a que encosta no colchão quando se deita de lado.

Dor no trocânter é bursite?

Nem sempre, e na maioria das vezes não é. O entendimento atual atribui a maior parte dos casos aos tendões dos glúteos, e não à inflamação da bursa. Isso muda o tratamento, que passa a priorizar fortalecimento em vez de anti-inflamatório.

O que significa “proeminência do trocânter maior” no laudo?

Costuma ser apenas a descrição anatômica da estrutura, sem indicar doença. Veja o que os termos do laudo sobre o trocânter querem dizer.

Dor no trocânter tem cura?

A maior parte dos casos melhora de forma importante com fortalecimento orientado e ajuste de carga. O tempo costuma ser de semanas a alguns meses, e quadros de longa evolução respondem mais devagar. Veja o tratamento da dor lateral do quadril.

Posso sentir o trocânter maior com a mão?

Sim. Apoiando a mão na lateral do quadril e girando a perna para dentro e para fora, é possível sentir a estrutura óssea se mover sob os dedos.

Dr. Tiago Bernardes

Médico ortopedista com atuação dedicada à cirurgia do quadril em Goiânia. CRM-GO 13.658, RQE 8594. Graduado pela Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS/DF), com residência em Ortopedia e Traumatologia no Hospital das Clínicas da UFG e treinamento avançado em Cirurgia do Quadril no Hospital Geral de Goiânia. Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira do Quadril (SBQ). Preceptor da equipe de Cirurgia do Quadril do CRER e da residência de Ortopedia do HUGOL.

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