Patologias do Quadril

Alterações no Trocânter Maior: O Que o Laudo Quer Dizer

Laudos de ressonância do quadril costumam trazer uma lista de termos sobre o trocânter maior que parece assustadora e raramente vem explicada. Este texto traduz os que mais aparecem, e diz quais realmente mudam a conduta.

Antes de tudo: laudo não é diagnóstico

Vale começar por aqui. O laudo descreve o que a imagem mostra. O diagnóstico junta isso ao que você sente e ao exame físico. É perfeitamente comum ter vários termos no relatório e nenhum sintoma, assim como o contrário.

Se você ainda não sabe o que é essa estrutura, comece por o que é o trocânter maior.

Bursite trocantérica

O que descreve: líquido aumentado dentro de uma das bursas ao redor do trocânter.

O que significa na prática: menos do que o nome sugere. Bursas com algum líquido aparecem em muitas pessoas sem dor. Hoje se entende que a bursa raramente é a causa principal, e sim uma reação ao problema dos tendões vizinhos.

Tendinopatia do glúteo médio ou mínimo

O que descreve: alteração de sinal no tendão, indicando degeneração da estrutura.

O que significa na prática: este é o achado mais relevante do conjunto. É a causa mais frequente de dor lateral do quadril em adultos, e o que responde melhor a fortalecimento orientado. Veja o tratamento da tendinopatia glútea.

Rotura parcial ou completa do tendão

O que descreve: interrupção das fibras do tendão, parcial ou total.

O que significa na prática: muda a conduta. Roturas parciais em geral seguem com tratamento conservador. Roturas completas, principalmente com fraqueza evidente no exame e alteração da marcha, entram na discussão cirúrgica.

Edema ósseo no trocânter

O que descreve: líquido dentro do osso, na região onde o tendão se prende.

O que significa na prática: indica processo ativo e costuma se correlacionar com dor. Quando presente, reforça que o achado do laudo tem relação com o sintoma. Sobre esse tipo de alteração, veja o que o edema ósseo mostra na ressonância.

Entesófito ou esporão

O que descreve: pequena formação óssea no ponto de inserção do tendão.

O que significa na prática: é sinal de sobrecarga crônica naquela inserção. Por si só não indica tratamento, e sua remoção não é objetivo terapêutico.

Irregularidade cortical

O que descreve: superfície do osso com contorno não liso na área de inserção.

O que significa na prática: geralmente acompanha tendinopatia de longa duração. É um achado de contexto, não uma doença isolada.

Aumento de partes moles ou espessamento da banda iliotibial

O que descreve: espessamento dos tecidos que passam sobre o trocânter.

O que significa na prática: costuma refletir atrito repetido. Reforça a indicação de trabalhar mobilidade e fortalecimento, e não de intervir cirurgicamente.

O que o laudo não consegue dizer

Tão importante quanto traduzir os termos é saber o que a imagem não alcança, porque é aí que a consulta se torna insubstituível.

A imagem não mede força. Um tendão pode aparecer alterado e a musculatura funcionar bem, ou aparecer quase normal e existir fraqueza importante. Só o exame físico avalia isso.

A imagem não diz o que dói. Achados idênticos convivem com dor intensa em uma pessoa e nenhuma dor em outra. A correlação entre imagem e sintoma é imperfeita em toda a ortopedia.

A imagem não mostra a evolução. Uma alteração estável há cinco anos e outra que surgiu nos últimos seis meses aparecem iguais em um exame isolado. Só a comparação com exames antigos revela a diferença, e é por isso que guardá-los importa.

Quais achados realmente mudam a conduta

De toda essa lista, três pesam de verdade na decisão:

  • Rotura completa de tendão com fraqueza no exame físico, porque abre discussão cirúrgica.
  • Edema ósseo extenso, porque orienta redução imediata de carga.
  • Achados que não combinam com o quadro clínico, porque obrigam a procurar outra explicação para a dor.

O restante compõe o cenário, mas não define tratamento sozinho. Recomendações gerais sobre manejo de bursite e tendinopatia estão reunidas no material do NIAMS, instituto de saúde dos Estados Unidos.

O que levar para a consulta

Leve as imagens, e não apenas o texto do laudo. E leve exames anteriores, se tiver: comparar como estava um ou dois anos atrás informa sobre a velocidade do processo. Sobre o quadro clínico que acompanha esses achados, veja as causas mais comuns de dor no glúteo.

Perguntas frequentes

Tenho bursite no laudo, preciso de infiltração?

Não necessariamente. A infiltração pode ajudar a controlar a dor e viabilizar a reabilitação, mas não substitui o fortalecimento, que é o que trata a causa na maioria dos casos.

Rotura de tendão glúteo sempre opera?

Não. Roturas parciais em geral respondem a tratamento conservador. A cirurgia é discutida em roturas completas com fraqueza e alteração de marcha, ou quando o tratamento bem conduzido falha.

Entesófito precisa ser retirado?

Não é objetivo do tratamento. Ele é consequência de sobrecarga antiga, e sua presença isolada não justifica procedimento.

Laudo com muitos achados significa caso grave?

Não necessariamente. A quantidade de termos no relatório não se correlaciona bem com a intensidade da dor nem com a necessidade de cirurgia. O exame físico pesa mais.

Preciso repetir a ressonância?

Repetir sem mudança clínica raramente altera a conduta. Novo exame faz sentido quando há piora significativa, suspeita de rotura nova ou planejamento cirúrgico.

Dr. Tiago Bernardes

Médico ortopedista com atuação dedicada à cirurgia do quadril em Goiânia. CRM-GO 13.658, RQE 8594. Graduado pela Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS/DF), com residência em Ortopedia e Traumatologia no Hospital das Clínicas da UFG e treinamento avançado em Cirurgia do Quadril no Hospital Geral de Goiânia. Membro da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) e da Sociedade Brasileira do Quadril (SBQ). Preceptor da equipe de Cirurgia do Quadril do CRER e da residência de Ortopedia do HUGOL.

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